Conto ilustrado · Conto · 4 min
CTRL+Z
Turma Fase 2 da Academy · equipe 3 · Da turma da Academy
A primeira vez foi com um copo de suco. Rafa viu o copo virar na direção do caderno de física, sentiu o estômago gelar e pensou, com toda a força, na única coisa que sabia fazer quando errava no computador: ctrl+z.
O copo estava de pé. O caderno, seco. O relógio do micro-ondas tinha voltado dez segundos.
Ele testou mais umas vinte vezes naquela noite, com o cuidado de quem desmonta uma bomba. Funcionava sempre do mesmo jeito: dois dedos batendo no polegar, como quem aperta as teclas, e o mundo voltava dez segundos. Nem mais, nem menos. E só ele lembrava.
Em uma semana, a vida do Rafa ficou limpa. A resposta errada na chamada oral virou a certa. O tropeço na escada da escola virou um passo normal. A mensagem mandada no grupo errado nunca chegou. Ele começou a andar de outro jeito, mais solto, como quem sabe que nada é pra valer.
A Lu reparou.
— Você tá diferente — ela disse, na fila da cantina. — Parece que nada te dá vergonha.
Ele riu e não explicou. Naquela semana, desfez três frases com a Lu: uma piada sem graça, um elogio exagerado e um “a gente podia sair” dito cedo demais. Na quarta tentativa, a frase saiu no tom certo, e ela disse sim.
No sábado, sentados no muro da quadra, a Lu ficou quieta muito tempo. Depois falou, olhando para o chão:
— Eu gosto de você. Faz tempo.
Rafa sentiu o rosto pegar fogo. A mão dele, sozinha, por puro hábito, bateu os dois dedos no polegar.
Dez segundos. O muro, a quadra, a Lu olhando para o chão. Ela ainda não tinha falado. Ele esperou, com o coração batendo na garganta.
— Que horas são? — ela perguntou.
Ele esperou mais. Ela olhou o celular, comentou do ônibus, falou da prova de segunda. A frase não veio. Não veio naquele dia, nem no seguinte. O momento tinha acontecido uma vez, com as palavras dela, e Rafa tinha apagado.
Naquela noite ele procurou o comando contrário. Ctrl+y. Refazer. Bateu os dedos de todos os jeitos possíveis, com a mão esquerda, com as duas, de olhos fechados. Nada. O mundo só sabia voltar.
Na segunda, na fila da cantina, a Lu estava duas pessoas na frente. Rafa sentiu a mão querendo fazer o gesto antes mesmo de ele abrir a boca. Enfiou a mão no bolso e segurou ali, fechada.
— Lu — ele disse, alto demais, com a voz falhando no meio. — Eu gosto de você. Faz tempo.
A fila inteira olhou. Alguém riu. Ele ficou vermelho do pescoço para cima e não desfez nada.
A Lu demorou dez segundos para responder. Ele contou.
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